"Vou contar-te uma história. Era uma vez uma princesa cavaleira que tinha a mania de ser guerreira. Comandou exércitos e reconquistou territórios. Libertou mulheres presas e absolveu condenados. Teve uma vida cheia de vitórias e não lhe faltava nada, a não ser um grande amor. Quando o descobriu, a princesa temerária montou outra vez no cavalo e foi atrás dele. E ele assustou-se porque percebeu que ela era indomável como as forças misteriosas da natureza que fazem tremer a terra e varrem as praias. Cansada de correr, a princesa voltou para o castelo e subiu à torre, onde ainda hoje sonha que ele a venha buscar.
- Não se pode correr atrás dos homens, eles não gostam. Percebeu ela, depois de muito tempo. Assim, deixou-se ficar na torre, que transformou num farol, para que ele não se perdesse no caminho quando a quisesse encontrar. De vez em quando vejo-a a mandar sinais de fumo em forma de mensagens; mapas em forma de olhares; setas em forma de sentimentos. Vejo-a sossegada, mergulhada no silencio dos seus sonhos. Vejo-a sentada naquele mesmo terraço, com o mar em frente, ou o deserto, tanto faz. E ao lado dela vejo um príncepe imperfeito, mas perfeito para ela, porque a perfeição está em tudo o que se ama. A nossa perfeição nunca se vê no nosso espelho; vive nos olhos dos outros e no amor com que nos vêem.
Podes acabar a história como quiseres, tu que também tens coração de poeta e alma de escritor, embora mais ninguém a saiba ler como eu. Podes acordar amanhã e escolher o teu lugar ao sol, sentar-te no chão do teu céu e abraçar uma princesa guerreira que se rendeu sem lutas, porque o que sente por ti não cabe em nenhum dicionário e vive na força do vento, nos pingos da chuva, na rotação do planeta que faz avançar os dias. Não tenhas medo dela, nem de ti, nem do futuro, porque o presente já é o futuro e um dia desfaremos a espiral e teremos tempo para todos os silêncios."
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